Oligossacarídeos: o que são e como eles contribuem para a saúde intestinal de adultos e, principalmente, dos bebês recém-nascidos

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Oligossacarídeos: o que são e como eles contribuem para a saúde intestinal de adultos e, principalmente, dos bebês recém-nascidos

23 de Abril de 2018
Luana Souza (CRN 3 - 27387)
Nutricionista

oligossacarídeos

Oligossacarídeos! Talvez você nunca tenha ouvido falar esse nome, mas certamente já consumiu algum produto que os contenham.

Essas biomoléculas ativas vêm sendo utilizadas comercialmente como ingredientes de cosméticos, medicamentos, produtos agrícolas e, principalmente, na indústria alimentícia, além de ser encontrada em alimentos naturais.

Exercem funções bastante variadas em todos os organismos vivos, e, nos seres humanos, tem grande importância para a saúde, com ação essencial para o ótimo funcionamento intestinal e prevenção de diversos tipos de doenças.

Vamos agora compreender quais os efeitos dos oligossacarídeos e como consumi-los de maneira adequada.

O que são os oligossacarídeos

o que são oligossacarídeos

Oligossacarídeos são carboidratos solúveis que participam da constituição da fibra alimentar. Por serem resistentes à digestão no intestino humano, não são metabolizados pelo organismo e, passam intactos pela parte superior do trato intestinal, sendo considerados não calóricos.

Quando chegam ao cólon, porção mais distal do intestino, são fermentados pelas bactérias naturalmente presentes na flora intestinal, como as espécies a Bifidobacterium spp. e Lactobacillus spp., consideradas bactérias “do bem” para a saúde do cólon e do organismo como um todo.

Durante o processo digestivo, as fibras, mesmo não sofrendo modificação em sua estrutura, por não serem digeríveis, exercem uma série de efeitos fisiológicos positivos para a saúde.

Quanto maior e mais frequente o seu consumo, mais são utilizados como alimentos pelos microorganismos. Esse processo aumenta a colônia de bactérias positivas e inibe o crescimento de bactérias consideradas ruins, criando, assim, uma microbiota saudável e benéfica para o ser humano.

Esse processo exerce diversos efeitos benéficos, como aumento do volume das fezes e adequação da frequência das evacuações, efeitos estes que confirmam a sua classificação no conceito de prebióticos.

Propriedades funcionais

Por serem considerados fibras prebióticas, alimentos que os contenham são classificados como funcionais.

Segundo a ANVISA, alimentos funcionais são aqueles que contêm em sua composição substâncias biologicamente ativas que, ao serem adicionadas à uma dieta usual, produzem efeitos metabólicos ou fisiológicos, resultando na redução do risco de doenças e manutenção/ prevenção da saúde.

As propriedades funcionais dos oligossacarídeos estão diretamente relacionadas com a estrutura tridimensional, a qual é responsável por interações com outras biomoléculas.

Fontes naturais de oligossacarídeos

fontes naturais de oligossacarídeos

São encontrados em grande variedade nos alimentos do reino vegetal, como frutas e vegetais. Alguns exemplos são: beterraba, banana, alho, cebola, chicória, trigo, tomate, aspargos e alcachofras.

Também são encontrados no mel, açúcar mascavo e tubérculos, como a batata yacon. A lactose, um dissacarídeo, é encontrada no leite e derivados.

Funções dos oligossacarídeos na dieta

O consumo desses compostos na dieta tem uma função primordial de modular a flora intestinal, uma vez que são fibras dietéticas.

O hábito alimentar atual da população brasileira tem fornecido uma baixa quantidade de fibras através da alimentação, o que propicia ao crescente aparecimento de doenças crônicas como a obesidade, diabetes mellitus, hipertensão, aterosclerose, osteoporose e, até mesmo, alguns tipos de carcinomas, principalmente, os relacionados ao sistema digestivo.

O uso de oligossacarídeos em produtos formulados pela indústria pode ser uma maneira alternativa de suprir as necessidades do organismo, principalmente, entre crianças e adolescentes, com hábitos alimentares inadequados para uma vida saudável.

Ademais, estes compostos podem ser utilizados como adoçantes em alimentos de baixa caloria substituindo o açúcar, além de atuarem como agentes umectantes. Por isso, são adicionados em sucos, refrigerantes, biscoitos, bebidas, iogurtes, cereais matinais, geléias e doces.

Obviamente, o ideal é que seja estimulado o consumo de alimentos que contenham naturalmente esses nutrientes, mas a adição em produtos alimentícios se mostra uma alternativa viável.

Tipos de oligossacarídeos

Existem diversos tipos, entre eles os mais comuns são a inulina, os fruto-oligossacarídeos (FOS), os galacto-oligossacarídeos (GOS) e as maltodextrinas.

Outros exemplos são o xilo-oligossacarídeos (XOS), lactosacarose, isomalto-oligossacarídeos (IMOS), galacto-oligossacarídeos (GOS), transgalacto-oligossacarídeos (TGOS), oligofrutose, rafinose, estaquiose, a maltose e a celobiose.

Benefícios dos oligossacarídeos

benefícios dos oligossacarídeos

Os efeitos de seu consumo para a saúde são enormes. O principal deles é o equilíbrio da microbiota intestinal, com aumento da incidência das bactérias consideradas boas, as quais constituem um critério de indicação de boa saúde.

Essas bactérias, chamadas de probióticas, aumentam a produção de ácidos orgânicos e inibem a proliferação de patógenos sensíveis a estas condições.

Naturalmente, eles regularam o trânsito intestinal e melhoram o volume fecal, evitando quadros de constipação. Além do mais, atuam produzindo vitaminas, viabilizando a absorção de minerais como cobre, cálcio, magnésio e ferro e produzindo importantes enzimas digestivas.

São considerados agentes imunomoduladores e modificadores de respostas biológicas, assim como poderosos compostos anti-inflamatórios. Auxiliam na proteção contra infecções e alergias, principalmente durante a infância.

Pelo efeito anti-inflamatório no intestino, ajudam a reduzir o aparecimento de doenças como a diverticulite ou melhorar a microbiota na síndrome de intestino curto, bastante comum após grandes ressecções intestinais. Também apresentam um efeito positivo na redução do risco de câncer de cólon e no tratamento de hiperplasia no ceco.

Estudos têm investigado e confirmado efeitos hipocolesterolêmicos, ou seja, diminuição dos níveis sanguíneos de colesterol total, bem como redução da pressão arterial em pessoas hipertensas e controle dos níveis glicêmicos em diabéticos, uma vez que interferem na absorção e metabolismo de carboidratos. Portanto, pessoas com síndrome metabólica podem se beneficiar enormemente ao fazer uso desses compostos.

Ainda podem auxiliar na prevenção de cáries dentárias, uma vez que não são fermentados pela saliva.

Oligossacarídeos na primeira infância

oligossacarídeos na primeira infância

Sua importância vai além do consumo na vida adulta, sendo essenciais para os recém-nascidos.

Eles são o terceiro componente, em proporção, presente no leite materno, após a lactose e os lipídeos. Seu índice no leite materno varia conforme a composição genética da mãe, a duração e o período da lactação.

O consumo do leite materno está associado à baixa inci­dência de doenças infecciosas e alérgicas em recém-nascidos e lactentes. Esse fato reforça os benefícios desses compostos, que, em conjunto com outros componentes do leite materno, estimulam a prevalência de bactérias boas no intestino e desenvolvem o sistema imune infantil.

Estudos comparativos das fezes de crianças em aleitamento materno e crianças alimentadas com fórmulas infantis demonstram que crianças amamentadas, ao contrário das demais, apresentam flora intestinal com alta prevalência de bifidobactérias e lactobacilos.

Ao nascer, as crianças apresentam um intestino ainda imaturo, propício à digestão dificultada e à invasão bacteriana. Essas fibras solúveis são capazes de aumentar os micro-organismos do bem no trato gastrointestinal, inibindo o crescimento de bactérias patogênicas e dando mais resistência a infecções.

Além do mais, ajudam a reduzir a incidência de distúrbios gastrintestinais infantis como as de cólicas, constipação ou diarreia, melhorando a consistência das fezes e frequência das evacuações.

Estudos comprovam que uma flora intestinal equilibrada é benéfica, não somente para recém-nascidos e lactentes, mas também para crianças de outras faixas etárias, até mesmo porque os efeitos vão além, ajudando a reduzir a incidência de infecções respiratórias.

Nesse sentido, crianças até os 6 meses não amamentadas ao seio não teriam essa proteção. Por isso, tem crescido tanto o interesse em adicionar prebióticos nas fórmulas de alimentos infantis, principais substitutos do leite materno. Os prebióticos têm sido combinados nestes produtos a fim de reproduzir o efeito dos oli­gossacarídeos humanos do leite materno.

Obviamente nenhuma fórmula é capaz de ser idêntica ao leite materno, mas se assemelham bastante na composição nutricional. As mais atuais vêm sendo suplementadas com FOS e GOS no intuito de facilitar o trânsito intestinal de lactantes no primeiro e segundo semestres de vida para crianças que não estejam em amamentação exclusiva e controlar infecções no sistema gastrintestinal.

O real papel dos prebióticos na infância e a dimensão de seus efeitos não estão totalmente esclarecidos, demonstrando a necessidade de novas pesquisas com o intuito de melhorar a compreensão de seus efeitos a longo prazo na flora intestinal das crianças.

Origem dos oligossacarídeos

origem dos oligossacarídeos

São derivados de monossacarídeos e polissacarídeos. Alguns são encontrados na forma livre em alimentos naturais como frutas, vegetais, leite e mel, como os dissacarídeos lactose e sacarose.

Já outros são oriundos de modificações físicas, químicas ou enzimáticas, a partir da síntese (química ou enzimática) ou da despolimerização de polissacarídeos (física, química ou enzimática). Por exemplo, a maltose e a celobiose são obtidos a partir de hidrólise química ou enzimática do amido e celulose, respectivamente.

Devido suas propriedades peculiares e o aumento da procura por novos alimentos/ingredientes funcionais, vem crescendo o interesse por estudos e utilização de novos processos biotecnológicos na obtenção de dessas fibras.

O uso de enzimas, em detrimento aos processos químicos e físicos, tem se tornado possível, através do uso da engenharia genética para a produção destes catalisadores. Um exemplo clássico é a produção de FOS a partir da fermentação da sacarose.

Recomendações

A recomendação diária do consumo individual de fibras alimentares é de 25 a 35g para adultos saudáveis acima de 20 anos. Para atingir essa quantidade somam-se as fibras insolúveis e as solúveis, nas proporções médias de 70 a 75% e 25 a 30%, respectivamente.

Os oligossacarídeos estão incluídos dentro dessa quantidade das fibras solúveis. Portanto, não existe um valor fixo para o seu consumo, uma vez que há a flexibilidade entre os diferentes tipos de fibras para atingir o a recomendação total.

Para os FOS, estabeleceu-se no Japão, como consumo diário aceitável, cerca de 0,8g por quilo de peso corporal por dia. No Brasil, ainda não foram estabelecidos valores.

A ingestão de alimentos que contenham esses prebióticos de forma natural deve ser incentivada sem restrições, pois não irá extrapolar a recomendação. Já os produtos alimentícios suplementados devem ser monitorados, para que, ao serem ingeridos, não interfiram na absorção de nutrientes da dieta como os minerais, lipídeos, proteínas e, até mesmo, os carboidratos digeríveis.

Efeitos adversos e contraindicações

efeitos adversos e contraindicações

Altas ingestões de prebióticos adicionados a produtos alimentícios podem diminuir a biodisponibilidade de nutrientes importantes ao fazê-los serem descartados nas fezes.

Alimentos voltados ao público infantil devem ser especialmente controlados, uma vez que o colesterol é essencial para o metabolismo da criança, e alguns oligossacarídeos tem ação hipocolesterolêmica, reduzindo a absorção desse metabólito.

Os FOS e GOS são comumente adicionados a produtos destinados à infância, todavia, os efeitos provenientes da sua utilização em longo prazo ainda não foram esclarecidos.

Existem diversos estudos que avaliaram as quantidades toleradas e com respostas positivas à suplementação na infância, porém os valores são muito divergentes, variando de 4 a 10g por litro, valor muito amplo considerando uma dieta infantil.

Com base nestes dados, percebe-se a necessidade de elaborar e executar pesquisas que verifiquem essa tolerância nas dife­rentes faixas etárias durante a infância, em quantidades variadas do suplemento e considerando as características clínicas de saúde em que as crianças se encontram. Sem isso, não parece possível inferir definitivamente sobre qual seria a dose segura de prebióticos a ser administrada às crianças suplementadas.

Em adultos, pode haver contraindicação para pacientes que devem ter ingestão controlada de fibras, como em casos com distúrbios intestinais pós-cirúrgicos ou doenças inflamatórias intestinais como a doença de Crohn em estágio inflamatório.

Além do mais, a ingestão de fibras em grande quantidade pode estar associada à flatulência, principalmente em indivíduos que possuem intolerância à lactose. Esse efeito tende a ser minimizado pela ação sinérgica da mistura desses compostos.

Para pessoas saudáveis sem restrições nutricionais, não há outras contraindicações.

Conclusão

Os oligossacarídeos são fibras alimentares solúveis que estão naturalmente presentes em alguns alimentos e podem, ainda, ser adicionadas à produtos alimentares para aumentar seu poder nutricional, principalmente aqueles voltados para crianças.

Eles são considerados prebióticos por serem capazes de aumentar a colônia de bifidobactérias e lactobacilos no intestino e nas fezes, promoven­do adequação da flora intestinal e melhora na dinâmica do sistema digestivo, além de diminuir o número de micro-organismos patogênicos.

São ainda mais importantes para recém-nascidos e lactentes, uma vez que ajudam na regulação do intestino deles, ainda imaturos, além de reforçarem direta ou indiretamente o sistema imunológico e proteger contra infecções comuns na infância.

Entre as diversas outras funções, propicia uma melhor digestão e absorção de alguns nutrientes, controle do colesterol e melhora do perfil glicêmico, além de auxiliar na prevenção de tumores.

Portanto, a conscientização e a adequação dos hábitos alimentares se fazem necessárias para que todos os benefícios destes carboidratos se façam presentes. No caso de crianças de primeira infância, que não estejam sendo amamentadas ao seio, fórmulas infantis adicionadas de FOS e GOS podem ser ótimas alternativas para se obter todos os benefícios desses compostos, se aproximando da composição do leite materno.

Ainda não existem evidências científicas concretas sobre os efeitos obtidos na utilização de prebióticos a longo prazo, uma vez que as quantidades utilizadas normalmente são bem variadas nos diversos estudos. Nesse contexto, vale o comportamento crítico quanto a indicação de produtos suplementados de forma indiscriminada.


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