Lactose, glúten e outros modismos: fuja deles antes que seja tarde

Receba dicas exclusivas sobre nutrição, atividade física e bem-estar. Cadastre seu melhor e-mail ao lado (é grátis)!

Lactose, glúten e outros modismos: fuja deles antes que seja tarde

9 de outubro de 2017
Ana Carolina Rocha (CRN3 - 48025)
Nutricionista

lactose

Lactose-free, Gluten-free, Sugar-free… Hoje existe uma tendência à adoção de dietas restritivas. Mas será mesmo que elas podem ser aplicadas para todas as pessoas? Quais são os benefícios e malefícios que uma restrição alimentar pode causar em nosso metabolismo?

Neste artigo iremos explicar como cada dieta atua no metabolismo para que você tome decisões conscientes sobre sua alimentação!

A geração dos “frees

Um dos fatores que mais contribuíram para o desenvolvimento do ser humano foram a sua capacidade de armazenar alimentos para os momentos em que a comida não estava tão disponível. Soma-se a isto a capacidade natural que nós humanos temos de armazenar energia corporal através de estoques de gordura para eventuais períodos em jejum.

Essa capacidade de armazenar os alimentos está intimamente ligada com a evolução da indústria de alimentos, que até alguns anos atrás tinha como uma premissa o objetivo de desenvolver alimentos que durassem bastante tempo, sem a alteração de seu sabor.

Isso causou um boom de alimentos ricos em gorduras, açúcares e sal – já que são conservantes naturais dos alimentos.

Outra premissa que a indústria tinha era a de produção de embalagens econômicas, pois por um período de tempo a população tinha o costume de ir poucas vezes por mês ao mercado e assim, essas embalagens garantiam o suprimento para a família por um mês.

Mas, a sociedade continuou evoluindo e mudando seus hábitos. As pessoas passaram a frequentar o mercado com mais regularidade, assim como o fast-food se tornou acessível a todas as classes econômicas. Resultado: a população aumentou seu consumo de alimentos calóricos e o índice de obesidade aumentou.

A geração dos “frees” veio com o avanço da tecnologia e informação, quando os alimentos que antes eram vistos somente como fonte de energia, agora são um aglomerado de nutrientes que podem ser classificados como bons ou ruins. Lactose, glúten e açúcar são somente os exemplos mais atuais que temos hoje como vilões dos hábitos alimentares saudáveis, mas será que esse conceito está correto?

Lactose: o que é?

lactose o que é

Lactose é um açúcar proveniente do leite, está presente nos leites de todos os mamíferos – inclusive no leite materno. Este açúcar é formado por uma molécula de glicose e uma de galactose, que são as formas absorvíveis deste açúcar. Existem algumas doenças que estão relacionadas com o consumo desse açúcar, como a Intolerância a Lactose e a Galactosemia.

A Intolerância a Lactose é causada pela deficiência na produção da enzima Lactase, que é responsável pela digestão da Lactose.

Quando a digestão desse açúcar não é feita corretamente, as bactérias presentes em nosso intestino a utilizam como alimento, fazendo sua fermentação, o que ocasiona um desconforto gastrointestinal (inchaço, gases, diarreia).

A intolerância pode se desenvolver em qualquer idade e o tratamento é feito através da exclusão total ou parcial da lactose da dieta.

A Galactosemia é caracterizada como uma doença hereditária, onde existe uma deficiência da enzima responsável por converter a galactose em glicose no fígado. Consequentemente há um acúmulo de galactose no sangue que provoca sintomas como aumento do fígado, desconforto gastrointestinal, problemas cognitivos, icterícia e insuficiência hepática. O tratamento é a retirada completa de leite e derivados da dieta, inclusive de laticínios zero lactose.

Outras doenças como a Síndrome do Intestino Irritável também podem ter sintomas indiretamente ligados ao consumo de lactose por isso, é essencial ser diagnosticado por um profissional, pois somente a exclusão de laticínios da dieta pode não ser o melhor tratamento para sua patologia.

Leite e derivados sem lactose

leite e derivados sem lactose

Uma alternativa que a indústria de alimentos trouxe para pessoas intolerantes a lactose são as versões sem lactose dos laticínios. Nesses produtos é acrescentada a lactase, para que a quebra da lactose seja feita diretamente no produto, não causando os desconfortos típicos da intolerância.

Isso quer dizer que esses produtos não são 100% livres de lactose, e sim que há lactase adicionada à fórmula. É importante ressaltar que estes produtos são seguros para intolerantes, mas que o acompanhamento de um nutricionista é essencial para escolhas alimentares adequadas a cada caso.

A vantagem dessa alternativa é que ela preserva as qualidades nutricionais do leite, suas vitaminas e minerais e, assim, colabora para uma dieta alimentar equilibrada.

Bebida vegetal

Muito utilizadas como substitutos do leite, as bebidas de origem vegetal são naturalmente isentas de lactose, um exemplo desse tipo de alimento é a bebida de soja. São alimentos nutritivos e recomendados para fazer parte de um plano alimentar equilibrado.

As bebidas vegetais não substituem nutricionalmente o leite de vaca, pois têm uma variação na composição nutricional: menos proteínas, mais carboidratos, menos gorduras, mais fibras e vitaminas e minerais diferentes. Porém, são opções muito saudáveis para incluir no cardápio.

Um detalhe importante é que as bebidas vegetais caseiras podem conter menos nutrientes que as industrializadas, que são enriquecidas.

E a alergia ao leite?

A alergia ao leite é uma reação que nosso corpo tem com as proteínas presentes no leite. Ela não tem relação com a lactose, que é um açúcar. Pessoas que tenham alergia ao leite não podem consumir nenhum derivado lácteo ou produtos que sejam feitos com leite, por poderem apresentar reação alérgica.

A alergia ao leite deve ser diagnosticada e comprovada através de testes bioquímicos e por seu médico, sendo que um acompanhamento com profissionais é necessário para evitar qualquer deficiência nutricional que possa ser causado pela restrição alimentar.

Vantagens e desvantagens da dieta sem lactose

Para pessoas que não apresentam patologia associada à lactose, não existe vantagem na retirada da enzima da dieta. Entretanto, as pessoas que seguem dieta lactose-free geralmente reduzem o consumo de laticínios, o que consequentemente diminui o consumo de gordura animal da dieta. Portanto, os benefícios estão mais relacionados à redução de gordura total da dieta, do que na redução deste açúcar.

As desvantagens relacionadas à dieta sem lactose também são consequência da retirada dos laticínios da dieta sem a devida substituição. Já que esse grupo alimentar é fonte importante de nutrientes e está diretamente relacionado com a prevenção de obesidade, osteoporose, doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2, e hipertensão.

Glúten

glúten

O glúten é uma proteína presente em cereais, e tem a função de formar massas mais leves e aeradas nas nossas preparações culinárias. Está muito presente em diversos produtos industrializados devido a contaminação cruzada que ocorre nas fábricas, mas não se preocupe porque em todos os rótulos existe a identificação se aquele produto possui ou não glúten.

Assim como a lactose, existem algumas doenças que estão associadas ao seu consumo, como Intolerância ao Glúten, Alergia ao Glúten e Sensibilidade não celíaca ao Glúten. Por terem sintomas muitos semelhantes de diarreia, cólicas, inchaço e dor, é necessário um diagnóstico médico para que o tratamento se faça adequado.

A diferença no tratamento dessas doenças está na quantidade de glúten que pode ser consumida pelo indivíduo, sendo que na Alergia o consumo deve ser restringido por completo e na Intolerância ou Sensibilidade há uma porcentagem de tolerância individual que pode ser ajustada.

Vantagens e desvantagens da dieta sem glúten

Para pessoas que não tenham nenhuma patologia associada ao glúten, sua retirada da dieta não trará nenhuma vantagem.

Mas, assim como acontece com a lactose, a vantagem para a saúde está na diminuição do consumo excessivo de carboidratos na dieta, que está associado ao desenvolvimento de doenças crônicas, e não à retirada exclusiva do glúten.

Como desvantagem há a restrição alimentar devido à contaminação cruzada do glúten em diversos alimentos industrializados, o que impacta nos eventos sociais. Para pessoas que não precisam retirar o glúten da dieta é importante que se atentem à composição da dieta, que deve ser sempre equilibrada.

Já publicamos um artigo falando exclusivamente das dietas gluten-free, você pode conferir aqui.

Zero açúcar

zero açúcar

Antes sempre recusados pelo sabor amargo dos adoçantes, os produtos zero açúcar ganharam mercado e é comum verem pessoas optando nos restaurantes por bebidas zero no lugar das versões tradicionais.

Os alimentos zero açúcar foram inicialmente formulados para diabéticos, os conhecidos diets, e para que a substituição do açúcar não seja perceptível pelo consumidor, o uso de adoçantes e gorduras são utilizados como alternativas. Por esse motivo, nem sempre um produto zero açúcar é menos calórico do que sua versão tradicional.

Esses produtos foram formulados para grupos populacionais específicos e, o consumo deles pelo resto da população levanta a pergunta: é uma escolha mais saudável ou é uma forma de compensação pela vontade de consumir doces?

Sem açúcar ou com adoçante?

Dentro de um plano alimentar equilibrado há espaço para todos os tipos de alimentos, inclusive doces, sempre em doses moderadas.

Nossa relação com a comida deve estar além da contagem de calorias, mas é importante o conhecimento sobre nutrição para que nossas escolhas alimentares nos proporcionem o máximo de benefícios para a saúde.

No mercado existem diversos tipos diferentes de adoçantes, que podem ser sintéticos ou naturais. Mas, independente do tipo, devemos ter consciência de que o adoçante deve ser usado com moderação, já que seu poder de adoçar o alimento é maior que o do açúcar.

O açúcar refinado tem se mostrado como um colaborador de calorias vazias, ou seja, somente agrega energia ao alimento, sem o acréscimo de vitaminas e minerais.

Mas, opções como o açúcar mascavo ainda preservam propriedades nutricionais encontradas na cana, e são também uma alternativa saudável de substituição do açúcar refinado em preparações doces.

Entretanto, a melhor opção é sempre reduzir o açúcar ao máximo nas preparações sem precisar fazer sua substituição por adoçante. Ou melhor, reduzir por completo o açúcar naquelas onde já existe um açúcar natural do alimento, como as frutas.

Nosso paladar tem a capacidade de se adaptar a novos sabores e a redução do açúcar pode ser feita gradualmente para que o impacto seja menor na qualidade de vida das pessoas.

Lactose-free, gluten-free, sugar-free: modismo ou realidade?

Essas dietas foram idealizadas para pessoas que sofriam de alguma doença que estava ligada ao consumo dessas substâncias.

A adoção delas nesses casos é imprescindível, mas também é o acompanhamento médico para que sejam feitas trocas alimentares saudáveis, pois esses indivíduos podem estar com seu nível de absorção comprometido e com possíveis deficiências nutricionais.

Com a ampla divulgação dessas dietas pela mídia surgiu um modismo a ser seguido por pessoas que não apresentam nenhuma restrição alimentar. Devemos ficar atentos se os autores que estão veiculando as sugestões de dietas são realmente nutricionistas, e não esquecermos que a melhor dieta é a que é feita exclusivamente para nós levando em consideração nossa individualidade metabólica.

Conclusão

Muita informação tem sido divulgada sobre os benefícios de dietas restritivas, mas não podemos deixar de lado nosso senso crítico e refletir que, se estamos precisando restringir alguma substância de nossa alimentação é por uma questão patológica específica ou na realidade precisamos de uma reeducação alimentar?

Não se deixe levar por modismos e sempre consulte um médico ou nutricionista quando quiser uma mudança alimentar para perda de peso. Ainda vale aquele mesma dica: dieta equilibrada + atividade física é a melhor combinação de saúde e perda de peso duradoura.


DEIXE SEU COMENTÁRIO

Artigos Relacionados