Como o jejum, sob orientação, ajuda pessoas saudáveis a fazer autofagia e reparo celular

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Como o jejum, sob orientação, ajuda pessoas saudáveis a fazer autofagia e reparo celular

28 de maio de 2018
Luana Souza (CRN 3 - 27387)
Nutricionista

autofagia

Autofagia: esse nome pode parecer distante do conceito de saúde, mas está mais próximo do que a maioria das pessoas imagina.

Vista antes apenas como um processo de morte celular, essa forma de autodestruição seletiva de alguns componentes celulares, descoberta na década de 1960, tem se mostrado uma estratégia eficaz para combater doenças e prolongar a vida das células.

Esse tema já garantiu até o prêmio Nobel de Medicina em 2016 para Yoshinori Ohsumi, um biologista celular e professor da Universidade de Tóquio.

Graças as suas contribuições e de outros pesquisadores que seguiram a sua linha de pesquisa, é que foram elucidados os mecanismos desse processo biológico e verificou-se que a autofagia é essencial para o funcionamento adequado das células.

Mas é essencial saber como ela pode ser acelerada e retardada e em quais momentos ela é positiva ou negativa.

O que é autofagia?

o que é autofagia

É um mecanismo importante de autolimpeza inerente a todas as células de nosso corpo, que recicla partes internas velhas ou malformadas. Sua tradução literal do grego significa “comer a si mesmo”.

O conceito surgiu nos anos 60, mas até a década de 90 pouco se sabia sobre ela, até que pesquisadores começaram a fazer experiências com leveduras para identificar os genes envolvidos no processo.

Hoje sabemos que todos somos autofágicos, nossas células se digerem e se renovam frequentemente, desfazendo o que não está funcionando direito e reaproveitando proteínas. É considerado um processo importante uma vez que, na sua ausência, há acúmulo de resíduos.

Quando esse processo de reciclagem está reduzido, acumulam-se componentes danificados, os quais estão associados ao desenvolvimento da morte celular, conhecida como apoptose.

Apesar dos nomes induzirem à semelhança, a autofagia e a apoptose são fenômenos distintos e induzidos por sistemas diferentes, mas que estabelecem uma conversa cruzada entre si.

O primeiro processo, o mais importante para as células, não induz à morte, mas sim a sobrevivência e resistência das células, regulando o metabolismo interno.

Contudo, ela não é um processo que acontece o tempo todo, sendo ativada por alguns genes em alguns momentos, principalmente quando há estímulos agressores como o estresse.

Como funciona a autofagia

como funciona a autofagia
Yoshinori Ohsumi: biologista celular, autor do estudo sobre autofagia

A destruição de componentes internos defeituosos se dá por meio da produção de algumas proteínas que são produzidas por estímulos internos ou externos. Quando produzidas, essas proteínas se encaixam e formam membranas, chamadas autofagossomas.

Essas membranas envolvem os componentes celulares a serem eliminados e se ligam com os lisossomos, compartimentos intracelulares que contêm enzimas fragmentadoras de proteínas e de outros componentes defeituosos.

Quanto mais há a indução da produção dessas proteínas, mais esses componentes defeituosos são reciclados pela célula, mantendo-a saudável.

Benefícios da autofagia para o corpo

Está sendo considerada uma estratégia capaz de prolongar a vida das células e combater doenças, promovendo o aumento da expectativa de vida.

A “desregulação” nesse processo poderia levar a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer ou o Parkinson, doenças infecciosas como a tuberculose, diferentes tipos de câncer e até mesmo condições crônicas como a obesidade, o diabetes, a artrose e as doenças cardiovasculares.

Grande parte das doenças estão ligadas a uma insuficiência ou a uma disfunção no processo autofágico. Portanto, manter o mecanismo ativo seria uma forma de prevenir problemas futuros, regulando o metabolismo celular e ajudando a prevenir o surgimento de uma gama de doenças.

Para a maioria das doenças citadas a ideia básica é estimular a esse processo para garantir a limpeza celular, já nos casos de câncer esse processo é mais complexo, pois o objetivo pode ser inibir o processo em alguns casos durante o tratamento.

Em células que se reproduzem normalmente, como os neurônios e células do coração, a autofagia pode ajudar na eliminação dos resíduos, além de preparar a célula para a apoptose.

Já em células cancerígenas, que se multiplicam de forma descontrolada, a autofagia pode se tornar uma resistência a compostos ou estímulos externos utilizados contra elas.

O desafio nos cânceres ainda é encontrar uma dosagem de compostos que equilibrem a autofagia e a apoptose de maneira que elimine apenas as células tumorais, sem lesar as normais.

Os estudos até então realizados no mundo se basearam em plantas e animais, mas o que se sabe é que o mecanismo autofágico natural do organismo diminui com a idade, e as pesquisam visam encontrar inovações capazes de mate-lo ativo e deixar nossas células em bom estado por mais tempo, garantindo uma vida mais longa e com qualidade.

Qual a relação entre o jejum e a autofagia?

qual a relação entre o jejum e a autofagia

A partir dos estudos de Ohsumi, começou-se a entender que a restrição alimentar auxilia na renovação celular, ou seja, ajuda na limpeza interna do organismo. Essa reciclagem é ativada quando a célula está em situações de estresse, como quando o indivíduo deixa de se alimentar.

Quando não recebe nutriente, a célula passa a se autoconsumir, degradando alguns componentes ruins e fazendo a “faxina” interna como uma estratégia de sobrevivência.

Isso acontece para que a célula redistribua os nutrientes e mantenha as atividades essenciais, eliminando o que não precisa mais através de um controle rigoroso.

Dietas da moda a parte, ojejum pareceativar esses mecanismos de autodefesa das células.

Ainda não se tem totalmente esclarecido qual a conexão entre a autofagia ativada pelo jejum e a longevidade das células dos seres humanos, pois a maioria dos estudos feitos até então foram realizados com animais.

São necessárias mais pesquisas para realizaruma indicação ideal do tempo que deveria durar o jejum para garantir esses benefícios. Entretanto, esse já é um início de um caminho de descobertas sobre a restrição alimentar e a maior qualidade de vida.

Mas, atenção!Não basta acordar de manhã e simplesmente deixar de comer. A alimentação equilibrada, variada e rica em nutrientes continua sendo fundamental para ter saúde, por outro lado a privação de alimentos de forma controlada pode ser indicada para algumas pessoas.

Todo mundo pode fazer jejum para estimular a autofagia?

Para saber se você está dentro das indicações para o jejum, deve-se sempre procurar por uma orientação nutricional individualizada e conduzida por um profissional especializado.

O métodosó deve ser aplicado em pessoas saudáveis, sem antecedentes de doenças como diabetes ou hipertensão, por exemplo.

Existem protocolos de jejum que podem ser utilizados para os diferentes casos. Normalmente períodos maiores do que 12 a 24 horas em jejum não trazem tantos benefícios, nem para o corpo nem para a questão social e familiar.

É sempre importante consultar um nutricionista para essa personalização e para garantir o suporte mínimo de nutrientes durante o jejum.

Vale lembrar que o jejum, para resultados, precisa ser feito de maneira periódica, supervisionada e acompanhado de uma rotina alimentar saudável. De nada adianta fazer jejum hoje e depois só no próximo mês ou ano.

Quem pratica exercícios físicos moderados a vigorosos também deve ficar atento, pois o jejum pode prejudicar o desempenho no esporte ou academia e até causar a perda de massa muscular.

Mas e a fome, como fica?

mas e a fome como fica

Esse assunto traz a tona o sintoma da fome. Muito se fala docomer de 3 em 3 horas para não sentir fome, o que diverge totalmente do princípio do jejum.

Essa orientação de fracionamento faz sentido para quem está em um processo de reeducação alimentar e tem o costume de “atacar” um prato depois de ficar muitas horas sem comer.

Muitas pessoas referem que não conseguem se controlar quando vem a chamada “fome de leão”. Para elas, o fracionamento das refeições pode ser um ótimo caminho para o controle alimentar.

Por outro lado, saber que o jejum pode estimular bons processos para o corpo, nos lembra que sentir fome, sabendo lidar com ela, pode ser um bom sinal para o organismo.

A fome é um sinal biológico que nos alerta quando é necessário reabastecer a energia do corpo, assim como sentimos sinais físicos quando precisamos dormir ou ir ao banheiro.

Portanto, a fome pode e deve existir, desde que respeitada. Prestar atenção nela e na sensação de saciedade são os principais meios para perceber quando e quanto comer.

Somente o jejum pode induzir à autofagia?

A resposta é não. Alguns experimentos sugerem que uma forma segura de aumentar a longevidade pela alimentação é um simples privação de nutrientes, como a glicose.

A redução das calorias totais ingeridas no dia em torno de 20 a 60% é capaz de estimular esse tipo de limpeza celular, de acordo com pesquisadores.

Mais do que simplesmente fazer jejum por algumas horas do dia e depois repor tudo aquilo que estava restrito no cardápio, o que levaria a uma ingestão calórica muito semelhante ao de um dia sem jejum.

A diminuição prolongada de consumo energético, principalmente de carboidratos e proteínas, induz a esse processo de reciclagem.

Uma redução no consumo de glicose, por exemplo, leva às células a produzirem menos energia pelas vias metabólicas habituais e também menos resíduos que acelerariam o envelhecimento. Além disso, parece estimular a autofagia, o que pode remover mitocôndrias e proteínas malformadas.

Por outro lado, se a privação de nutrientes for muito brusca e longa, os efeitos para o corpo podem ser negativos, uma vez que as células poderiam começar a degradar componentes bons.

Portanto, nenhuma dieta drástica se justifica. Tanto a redução das calorias totais da dieta quanto o jejum, devem ser bem orientados para não causar prejuízos. O jejum pode ser um recurso utilizado durante um período sob orientação e a redução moderada de calorias precisa ser permanente para produzir efeitos, sendo necessária muita disciplina.

Existem outras formas de induzir a autofagia?

existem outras formas de induzir a autofagia

Já estão sendo estudados alguns compostos químicos que a estimulam, alguns extraídos de raízes, folhas e cascas de alimentos. Ainda não tem se sabe exatamente suas ações no corpo humano, mas essas descobertas já abriram caminhos para que, futuramente, descubram seus efeitos exatos no combate ao envelhecimento.

O resveratrol, composto antioxidante natural encontrado na casca de uva, vinho tinto, frutas vermelhas e nos chocolates amargos, parece ter efeitos sobre a vida e a morte das células, apresentando um efeito antienvelhecimento em células saudáveis.

Segundo Guido Lenz, um pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), “o resveratrol parece perceber quando uma célula é saudável ou tumoral”, podendo ter uma ótima ação no combate ao câncer, além do estímulo a autofagia e na detenção do envelhecimento.

O resveratrol tem uma vasta gama de benefícios, desde a capacidade antioxidante, combatendo os radicais livres, como a regulação de muitos genes favoráveis relacionados a redução de doenças e preservação da massa óssea em idosos. 

Em estudos com ratos, o consumo de fontes de resveratrol associado à restrição calórica, mostrou-se como forma eficaz de indução da autolimpeza celular.

Conclusão

A autofagia, uma reciclagem dos componentes celulares, vem se mostrando uma maneira eficaz de sobrevivência das células, de redução do processo de envelhecimento e de doenças neurológicas, infecciosas e crônicas.

A descoberta de maneiras de estimular esse processo de maneira adequada talvez um dia nos permita viver por mais tempo com boa saúde.

Enquanto não chegam os resultados de testes clínicos em humanos, algo que ainda poderá levar anos, já se pode estimular a autofagia pela alimentação, pelo jejum programado ou pela redução total das calorias ingeridas.

Outro aliado na estimulação desse processo é o consumo de alimentos ricos em resveratrol, um poderoso antioxidante e “faxineiro” celular.


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